13 de fev de 2013

A enseada

A tarde surgia no horizonte com a sua quentura habitual. As pessoas andando tranquilas na calçada e os carros cansados percorriam a rua como de costume. Nada muito diferente da normalidade. O céu bonito sob as cabeças distraídas que não lembravam de reparar que o dia estava caindo nos braços da noite e somente algumas máquinas fotográficas guardaram aquele instante na memória. No meio da avenida principal uma moça de traços comuns caminhava sem pressa pelo calçadão e sentia-se completamente desencontrada no meio das pessoas nada percebiam de distinto em sua face simplória. E esse desconforto deixava a jovem desanimada. Queria, como todos os outros, ser notada , mas no meio do formigueiro uma formiga comum é apenas uma formiga comum. Não adiantava se esforçar para parecer mais atraente aos olhos alheios; um vestido ilustre, um sorriso estonteante no rosto ou um bom discurso não eram convincentes para atrair os olhares de quem ela desejava ser notada. Sentava nos bancos sem acabamento e lia um bom livro sentindo o vento sussurrar coisas bonitas em seus ouvidos. Ali no meio do povo, no centro da vida, ela se sentia como qualquer um que ali caminhava; mas, no quando olhava o mar ela se sentia perceptível, importante. Talvez fosse pela intensidade da brisa que a tocava de modo incomum; ou as ondas que se aproximavam cada vez que a tarde caía, mas devia ser a sublime sensação que a natureza lhe causava. Toda a beleza e sinceridade presentes na majestosa monotonia das ondas que chegavam até a orla e depois voltavam e o vento que soprava calmo mostravam toda a grandeza e amor de alguém que se importava com ela mais que qualquer pessoa do universo. Ela sentia a graça da vida na poesia presente no ar e no voo dos pássaros que caminhavam soltos na areia branca da enseada. A moça sentia o amor de Deus em cada detalhe contido ali. Por isso sentia-se distinta ao contemplar aquela maravilha de mar. Se sentia amada, importante para alguém tão grande que todos os dias lembrava-se de acordar o sol, soprar a brisa e dar sentido a cada uma das suas bondosas criaturas. O amor era a única razão de manter a esperança entre tantas cinzas de indiferença urbana.

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