29 de jan de 2013

Estrangeiros


É como viajar para uma cidade nova. Aquela estranheza que nos acomete por princípio. Tudo é desconhecido e fascinante. Os arredores que nos convidam a caminhar e os bares pouco povoados que nos chamam para um café ao entardecer. Estar fora do seu mundo é algo instigador e por vezes nos assalta a calma. Assim como os romances que surgem em nosso cotidiano e nos dominam por algum segundo. No início parecem encantadores e aventureiros. Despertando o que temos de mais primitivo e vendando nossos olhos com uma seda quase original, delicadamente a furtar a sanidade que nos é tão característica. Ultrapassamos as fronteiras que nos torna meros vizinhos e iniciamos uma perigosa jornada rumo ao desconhecido. Descortinam-se as muralhas que outrora impediam uma visão aerodinâmica da realidade. Agora estamos em terreno alheio. Peregrinos em terra estranha com sapatos empoeirados da poeira quente do deserto. Imigrantes e turistas de territórios despovoados e silenciados pelo mistério. Tantas vezes somos apenas estrangeiros na vida de outrem. Pensamos estar familiarizados com sua cultura; com o jeito de pegar a colher e colocar a comida na boca. Pensamos estar aptos em imitar o sotaque exagerado do nativo, mas apenas dizemos o que não conseguimos compreender. E de repente tudo o que aprendemos sobre os modos e costumes simplesmente nunca foram de fato lições, mas sim armadilhas sentimentais. Achávamos bonito o modo que eles nos recebiam. Sempre alegres há desejar um dia bom para nossas incursões pela cidade. Mas nunca fomos conhecidos. Apenas vizinhos distantes que nunca experimentaram a torta de maracujá que a vovó prepara aos domingos. Após alguns jantares sob a luz das estrelas os diálogos cessam e silenciam. Todas as conversas desaparecem e cada gesto foi apenas um jogo sentimental. Nenhuma palavra dita foi verdadeira, nenhum riso foi deveras gargalhada. Apenas encenações e melodramas pensados com afinco. No fundo ninguém se tornou conhecido. Os muros continuavam a separar tudo. No fim da viagem ao mundo estranho de outro ser sentimos a discreta dor de saber que nada será como antes. Continuaremos como estrangeiros em terras dispersas no globo.

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