3 de nov de 2012

Naquele banco cinzento...







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Já havia anoitecido quando ela decidiu ir embora. Ela olhou para o céu e suplicou por chuva, assim os outros não perceberiam as lágrimas que escorriam soltas de seu rosto. Ela precisava de um barco, para escapar da tempestade que nascia em seu coração. Mas não permitiu fraquejar. Rapidamente enxugou o rosto e caminhou para longe do Parque. Sozinha, naquela rua vazia, tentava encontar um caminho para casa. Precisava do silêncio do seu quarto, não da solidão daquela rua. Estava escuro, e alguns percorriam sonolentos a avenida que ela acabara de chegar. Buscava uma parada de ônibus, um taxi, uma bicicleta de circo esquecida pelo equilibrista. Qualquer coisa que tornasse fácil seu retorno para o lar. Mas nenhum coletivo passava, em vão assoviu para um táxi que cantou pneu rua abaixo. Talvez fosse preciso dormir ali ao relento, ou sumir na penumbra entre o cheiro envolvente da noite e o breu que distorcia sua visão. Caminhou em busca de alguém que a ajudasse, mas as pessoas mais pareciam zumbis do que gente. Tinha um rapaz que olhava uma poça suja quase imóvel, com um olhar de louco. Apressou o passo, reteu o ar e dilatando as puplas tentava ver uma luz naquela tormenta. Sentiu os primeiros pingos de chuva, e sorriu.  Um riso falho, incrédulo, gasto. Avistou um banco cinza na antiga praça da vizinhaça. E ficou ali, petrificada. Observando o semáforo piscar como um vagalume sem graça. Um leve desespero quis atormentá-la, de leve dissipou-se na névoa da madrugada. Era tarde, o celular descarregou há horas, e o coração batia sem ânimo. Entre as gotas de água que derretiam o céu ela lembrou dos minutos passados. Do sorriso que a fez estar ali naquele frio terrível, dos olhos que a encantaram para abandoná-la no vácuo. Concluiu que não fazia diferença acordar para mais um dia parado, extasiado. Era como aquele banco apático, um tanto faz como tanto fez que embelezava aquele devaneio. Que importancia havia em estar ali se não estava. Se os sentimentos que a mantinham pulsante haviam desfalecido naqueles minutos de espera? E perguntou de si para si a explicação para aquele momento. Para aqueles postes quebrados estarem ali de pé sem iluminar nada, para aquelas gotas de chuva que só molhavam sua blusa já enxarcada? Era a quinta vez que aquele episodio se repetia. Como um vídeo antigos assistido milhares de vezes pelos mesmos olhos cansados. As mesmas sensações de angústia e raiva, o mesmo medo de estar novamente desapaixonada. Ele não veio, não foi, desapareceu. Sumiu entre as estrelas que se comprimiam no céu de oceano. Havia esquecido dela mais uma vez. Propositalmente? Ocasionalmente? Qualquer advérbio que termine com mente... talvez. Ele blefou. Mentiu, suprimiu, escandalizou. Ateou fogo ao seu vilarejo e mandou ceifar cada sentimento belo. Degolou os versos, assassinou as rimas, derretou na água quente as juras de um amor incerto. E depois sumiu. Sem motivo, sem desculpas, sem nada. Ela expirou aquele ar venenoso. Virou o rosto e dormiu, indiferente.