20 de mar de 2013

Antiguidades.

Ele olhou no âmago dos meus olhos e sugeriu que eu deixasse de escrever. Disse que colecionar cartas no armário era hábito de gente antiga e eu era muito moderninha para relíquias. Disse também que não adiantava ficar melindrosa no canto do quarto escrevendo poemas e versos que não o trariam de volta, apontou o dedo indicador e disse: " Me esquece, sua doida!", deixou todas as nossas fotografias na escrivaninha e foi embora. Até hoje me interrogo sobre os sentimentos que me moveram a escrever tantas cartas para ele. As cartas que hoje se apertam no meu armário de antiguidades. Certo dia, enquanto arrumava o antiquário, observei um bolo de cartas endereçadas para um garoto que me apaixonei na 5ª série. Naquela tarde quentinha ri gostosamente ao relembrar essa paixão infantil e doce. Numa mistura quase perfeita de tapas e beijos, só que sem beijos, que deixou meu dia tão leve que quase virei um balão e voei. Tantas lembranças num único móvel, tantas parcelas de mim em mil e uma palavras. E me pergunto quem sou eu entre tantas fases e emoções? Quem sou eu no meio de tantas paixões e contos que não tiveram um final emocionante. Quem me tornei após tantos percalços e desencontros? A resposta não está desencontrada nas letras que me decifraram em relíquias do passado, mas está aqui nos muros indecifráveis dos meus olhos. Nas paredes que me protegem das desilusões efêmeras, está aqui em meu vilarejo interno. Nas ruas de tijolo branco do meu coração, cercado de violetas e girassóis. O amor que ainda queimava manso no meu peito seria acalentado pelas letras que o tornariam real, mas distantes de mim. Ainda está cedo para escrever outra carta, cujo destinatário resolveu não mais voltar. E se porventura nessa imensidão de palavras o meu elo intrínseco for reencontrado é porque naquele amor havia encontrado um pedaço; vestígios de mim perdidos na alma de outros amores desencontrados.

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