2 de fev de 2013

Desculpa Moço - Capítulo 3

O livro estava marcado na página 7 com uma florzinha do campo. Ainda sentia o cheiro da planície nas pétalas azuis, aquele frescor de mato na folhinha quase morta atada fragilmente ao pedúnculo da flor. Aquele pedacinho de nada embaraçou sua vista e rapidamente perdeu-se da história. As palavras sumiram num redemoinho de memórias. Nada fazia sentido, apenas o cheiro do orvalho cobrindo a campina e despertando os pássaros dorminhocos. Fechou o livro com delicadeza, tomando o cuidado de trocar a flor por um pequeno envelope que estava sob a mesa. Gostava de olhar a rua pela janela suja do seu quarto. A fumaça da fábrica de castanhas deixando o céu cinza e  um casal de pombos namorando no poste quebrado. Dentre as inúmeras surpresas que ela encontrou naquele lugar, a ociosidade foi sem dúvida a mais desconfortante de todas. Ficava dias sem fazer absolutamente nada. E aprendeu a se acostumar com isso. Lia uns livros no final da tarde quando os programas da televisão ficavam insuportável, e aos domingos ia ao lago olhar os outros pescarem. Tentou escrever para uns amigos do sul mas faltava inspiração, as palavras simplesmente não saíam. Estavam adormecidas junto a ela, ao eu que se perdeu quando seus pés pisaram pela primeira vez naquele país. Foi comovente o modo que sua tia olhou para ela quando a viu na estação. Com olhos de alegria e preocupação, suas pupilas atentas observaram como as pálpebras da titia tremiam quando perguntou sobre o motivo de sua partida. Ela não soube responder. Sorriu sem graça e disse apenas que estava cansada da viagem e queria descansar um pouco. As conversa a partir daquele instante continuaram escassas. Falavam pouco sobre si mesmas, mas costumavam comentar sobre o clima ou alguma notícia que passou no jornal da noite anterior. Ela perdeu a vontade de prolongar as conversas, encerrava os diálogos com uma animosidade incomum. Quando sentia que os assuntos declinariam para o lado pessoal ela simplesmente desconversava. Na verdade tinha receio de chegar aos assuntos mais internos. Pra quê verbalizar as lembranças do pretérito? Preferia ficar no conforto do presente. Aceitar a brisa cinzenta da cidade e esquecer a candura do campo. Queria ser outra moça, talvez não tão branda como outrora, talvez com um pouco de fuligem na pele. Mas naquela tarde as lembranças vieram de modo inevitável. Escondida nas páginas velhas de um livro que carregou consigo quando partiu. Nem lembrava daquela flor e muito menos conseguiu fugir daquele dia em que ganhou a florzinha. Aquele moço da campina que roubou a flor da relva e lhe deu de presente. Para minha amiga, ele disse, e ela fechou a cara como guarda chuva quebrado num temporal. O rosto dele iluminado pelas luzes do sol que cercavam a planície e a flor esquecida num livro que estava lendo na primavera. Forçou os olhos a afugentarem a cena da sua mente. Os sons, a neblina, as luzes mornas desapareceram. Era noite e a tia chamou-a para jantar. Depois de comer a sopa a tia disse que a vizinha entregou uma carta que deixaram na sua caixa de correios naquela manhã. O carteiro deve ter errado o número da casa, disse a tia com tom alegre e entregou a carta para a moça que sentiu as pálpebras tremerem e sem mais delongas suas borboletas estomacais despertaram. Ela pegou a carta e saiu nervosa para o quarto, não explicou nada para a tia, apenas olhou sem jeito e se trancou no seu mundo. Que palavras haviam ali meu Deus? pensou a moça  antes de abrir a inesperada carta.

11 comentários:

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Tammy, que lindo isso! Nem sei descrever o quanto foi gostosa essa leitura. Adorei e já estou na espectativa da carta e claro que torcendo para dias felizes para a menina da florzinha do campo.
Parabéns, Tammy.
Beijo no seu coração
Manoel

Pedacinhos de mim disse...

Olá Tammy,

As palavras que escreves têm um dom em mim, tudo parece ser vivido, sentido, consegues com que, por momentos, eu viva tudo o que escreves, sinta cada sentimento presente nas palavras que ganham vida em mim.
Quando se escreve, quando se deita ao mundo histórias vidas do coração, tudo é entendido de outra forma e isso, isso fazes tu muito bem, fazes de uma forma mágica que prende o olhar de quem gosta de te ler.
Mais uma vez um bonito texto, um bonito bailado de palavras que eu adoro ler.

Um Beijo no coração :)

Blog do Óbvio - Manoel disse...

Tammy, poxa! Meus parabéns pelo seu talento. O conteúdo da história está perfeito,
mas o modo como você escreve e detalha as situações é muito bonito. A gente
"flutua" lendo seus escritos. rs...rs.
Beijo com carinho
Manoel

Alexandre Lucio Fernandes disse...

O conto está lindo. Se ele fosse doce, diria que ele tem a textura de uma broa de milho. A leitura se esfarela nos olhos, de tão doce que é, e de tão macia as palavras são. Você delineia o amor e suas facetas, sob um cotidiano apaixonante de duas pessoas, de dois amores. A carta é o elo, o elemento que dá o tom à trama. No mais, adoro teu estilo de escrever, riquíssima em descrição e tão aplumada de ternura. Concordando com o moço acima, a gente "flutua" lendo os seus escritos.

Por fim, me apaixonei pela história. Conta logo o fim. rs

Beijo!

ps: menina, tu ficou estupenda com o meu retorno é? Voltei de férias renovado. E todo ano sempre mudo um pouco a decoração do blog. A cada mudança sempre digo que é a melhor, mas essa última realmente foi hahahaha. Pôr do sol é o meu alicerce... Afinal, são elos no horizonte rsrs Tu acabou tão pasmada com o blog e nem comentou meu texto. Te espero... Beijo!

Marco Gothe disse...

bonito....belo.
http://risingbelow.blogspot.pt/

Agostinho Barros disse...

Olá querida Tammy,
Eu adoro o enigma, dá o fundo do meu layout (cantora Lana Del Rey), e a musica diz-me muito. Fiquei feliz por você gostar de meu blog, tornei-me seu seguidor.
Gosto imenso da forma como você escreve, é linda e simplesmente perfeita. Amei este capítulo e estou ansiando para o próximo.

Jéssica Teles disse...

Ternura, palavra perfeita para descrever o seu comentário que encontrei no meu blog. Aquele tipo de coisa que a gente lê e sem perceber vai sorrindo e de repente se vê encanta, assim, inesperadamente.
Obg *-*

Beijo, beijo!

Goiabasays

Agostinho Barros disse...

muita gente gosta do meu castanho escarlate dos olhos , apesar de preferir azul * Ainda bem que gostaste do que viste no meu cantinho e aguardo breve visita tua, beijo *

Luzia Medeiros disse...

Querida Tammy você escreve tão docemente. Já estou amando este conto. Hum, o que será que tem escrito na carta? Quero logo saber!

O que mais me encanta nos teus textos é a riqueza de emoções em cada detalhe.

Beijos, minha flor, fica com Deus.

Pedacinhos de mim disse...

E aqui está a continuação das palavras que tanto gosto de ler, palavras que escreves com amor e isso, isso é mesmo sentido por mim.

Um beijinho :)

Karine Maciel disse...

Amiga,estou super ansiosa pela parte 4.
Tive que passar aqui pra copiar pra posteridade os alguns dos teus escritos.

Parabéns,linda!