26 de dez de 2012

Veleiro.

Recordo claramente do dia que meu veleiro avistou a sua enseada. Estava frio e o mar permanecia quieto. Havia uma fogueira na praia e pensei  que talvez encontrasse um bom lugar para dormir até o sol despontar seu brilho no horizonte. Lembro do seu sorriso glacial iluminando aquela noite densa e misteriosa. E ao som do vento cantamos uma canção mansa para celebrar aquele dia incandescente. Havia luz em seus olhos, como uma tênue chama amarelada a clarear a penumbra. E por algum tempo acreditei que ao seu lado era o meu lugar. Demorei a observar que aquela praia era na verdade uma ilha. Um pequeno espaço de terra no meio do oceano. Jamais poderia ficar, pois aquele lugar era tão seu que não havia canto para outro coração. A noite caia serena e enquanto você dormia eu parti. O suave vento da madrugada arrepiando minha pele, e uma parte de mim ficou com você, recostado nos seus braços quentes. Uma lembrança vaga a acalentar minha respiração, seu rosto derretendo no amanhecer, e meu coração gelado espalhando neve pelo oceano. Foram dias encantadores aqueles; a água estava fria e suas mãos congeladas se entrelaçavam nos meus dedos. Seu sorriso me aqueceu por um bom tempo. E quando a chuva tocava areia branca nós dançávamos ao som dos pingos tocando o teto da casa. Aquela casinha simples onde havia xícaras de café quebradas, bebi o café amargo naquela xícara azul iridescente. Sua boca escarlate sentindo o calor que evaporava da caneca, e eu inspirando o aroma do café fresco. Meu amor se sentiu amado ao seu lado, mesmo que por alguns minutos. Agora só restou um pouco de água no cantil velho, e algumas uvas esverdeadas, da cor dos seus olhos ao anoitecer. Estou indo para um lugar melhor, eu sei. Mas estou flutuando no meio do mar, como uma baleia navegando solitariamente no silêncio do oceano. As águas azuis se misturando com a escuridão e meus olhos adormecendo com o sol. Vejo seu rosto ao longe, talvez você pense em mim quando o frio chegar. E eu, continuarei lembrando da tonalidade dos seus olhos. E todas as vezes que minhas pupilas contemplarem o sol, pensarei em você sorrindo para mim. Quem sabe um dia verei seu barco encostando  no cais do meu vilarejo. É apenas um vislumbre, um sonho bobo que afunda lentamente na imensidão azul do mar sossegado.

4 comentários:

Anônimo disse...

legal gostei bem criativa

Desa disse...

C-A-R-A-C-A!!!!!!queria eu escrever assim prima. Poxa vida! Seria bom se as pessoas fossem assim..expressivas.

Luzia Medeiros disse...

Adoro textos bem descritos, me faz sentir os aromas da história.

Beijos.

Rita Cardoso disse...

fiquei tão feliz com as tuas palavras!
foi exatamente essa a ideia que quis transmitir a quem lesse. obrigada pela tua interpertação!
em relação ao teu cantinho aqui, tens um dom natural para a escrita. obrigada por o partilhares conosco.
beijinhos